A Cultura "Real" na organização

O conceito de Cultura Organizacional é tão valioso, porém pouco estudado por quem lidera equipes. Poucos realmente interessam-se nos fundamentos e fenômenos envolvidos neste tema. Agem como se soubessem de tudo e como se isso fosse algo de simples identificação ou utilização.


Posso assegurar-lhe que este assunto é vasto e, pode ser espinhoso a quem o negligenciar. Aqui vou fazer um comparativo com uma crença, muito utilizada na educação financeira, que diz "dinheiro não aceita desaforo", o mesmo acontece com a cultura da organização. Desta forma, aqui atrevo-me a dizer que:


"Cultura não aceita desaforo"

E não aceita mesmo! Ao desaforo aqui, refiro-me a qualquer pessoa que insista em não considerar este ingrediente em todas as suas decisões. Repito: TODAS!


Trago para isso, uma célebre frase, atribuída a Jack Welch:


"Muitos falam sobre cultura na organização, mas as equipes sabem quem são os babacas"

Ahhh e como sabem!


E se você quer liderar alguém, têm o dever de estudar com atenção este tema. Para ilustrar, trouxe uma imagem que pode nos apoiar.


Na parte visível estão os ARTEFATOS, ou seja, tudo que pode ser de alguma forma, tocado ou visto, como produtos, tecnologia, vestimenta, rituais internos, ambientação...

Na primeira parte submersa do iceberg, são os VALORES COMPARTILHADOS, ou seja, já encontraremos uma nova camada que traz elementos do "jeitão" daquela organização, como o certo e o errado, filosofia dos fundadores, objetivos de futuro...

Mas é na parte mais profunda, que estão os elementos mais complexos e invisíveis, justamente estes que são o diferencial entre sucesso e fracasso de projetos, por exemplo, são chamados de PRESSUPOSTOS BÁSICOS, como as crenças, o inconsciente, os "não explícitos", hábitos e relações informais.


Estão nestes pressupostos as respostas pelo que as equipes sabem quem são os babacas!


Você já deve ter ido a uma reunião na empresa, onde muitas vezes a chefia, faz uma apresentação em que todos observam, mas se entreolham ao escutar e duvidar do que deveria ser feito. Lembra-se disso? Muitas vezes todos saem da reunião acordados de iniciarem o projeto, só para dar o gosto da chefia de "achar" que diz o que deve ser feito, mas na real, em poucos dias o projeto está respirando por aparelhos e à caminho do túmulo.


Quantos e quantos projetos iniciam e já têm prazo de mortalidade estabelecido. E adivinha quem é que define este prazo? Se você pensou nos pressupostos está no caminho certo. Por este motivo saber identificá-los e criar um "ambiente de troca", ou seja, sinergia com estes elementos é habilidade tão valiosa em quem lidera equipes e projetos.


Iniciar um projeto ou abrir uma semana de trabalho na equipe, sem observar essa bússola é um erro tão grave, mas tão grave, que aos poucos mina a reputação da liderança e contamina todo o negócio.


A equipe sabe quem são os babacas, ou seja, a equipe conhece os caminhos reais, onde as ideias têm maior fluidez e agilidade. E perceba que liderar então, é um exercício de estudo de ambiente, de observação criteriosa de sinais e de vetores que podem ou não apontar na direção que o projeto ou que a área deseja.


Quer liderar de verdade? Estude sobre liderança!


Simples assim, caso contrário, prepare-se para o contador de mortalidade de reputação que está, neste momento, rodando contra você!


Pensando nisso, deixei aqui 04 dicas, caso queira aprender a ESCUTAR melhor os sinais dos pressupostos básicos:


  1. Comece pelo começo! Uma mudança cultural só é efetiva se iniciada de baixo para cima e com ação de cima para baixo. Ou seja, se você precisa transformar sua equipe ou área, ou mesmo implantar um projeto, primeiro estude sobre quais pressupostos estão presentes em sua área/organização, por exemplo, quais "mitos" (tudo que não está escrito mas que muitas vezes é mais forte do que os ritos formais) que são pronunciados nos corredores, quais são as pessoas mais acessadas pelos demais como exemplos ou que reforçam estes mitos. Em seguida, trace um plano de ação para aproveitar a energia ou para mitigar/bloquear no caso de mito negativo.

  2. Escute atentamente antes! Se você assumiu recentemente a equipe ou o projeto, interesse-se em escutar mais antes de apresentar seus argumentos. Preste atenção, faça mais perguntas, explore ideias e identifique em toda a cadeia de valor da área ou do projeto, quais as potenciais fortalezas, fraquezas, oportunidades e ameaças. Para isso, pare de falar e comece a escutar melhor.

  3. Agenda do líder. Quem lidera deve ter tudo muito bem sincronizado com todos os demais envolvidos, de modo que esta implantação ou transformação seja pauta coletiva. Mas jamais imponha e sempre negocie estes prazos, solicite aos envolvidos a sua proposta de datas garantidas, ou seja, contrate prazos que todos estejam comprometidos com a real entrega e não somente na responsabilidade de quem lidera. Combine todas as consequências de cada eventual resultado de cumprir ou não a agenda coletiva.

  4. Seja exemplo. Quer que algo seja diferente? Pare de reclamar ou de encontrar culpados e comece por você! Pare de culpar a cultura da empresa como se esta fosse uma vilã invisível. Aprenda a lidar com ela e seja você a mudança que quer ver ao seu redor. Caso contrário, entrará na lista dos "babacas" que a equipe já conhece de cor.


Perceba que liderar uma equipe e transformá-la em um time ou liderar um projeto e transformá-lo em uma entrega é algo que merece muito estudo e dedicação. Acredito que seja por isso que tantos desistem e negligenciam, ou seja:


liderar dá trabalho!


Sendo assim, para mudar uma cultura ou melhorar um ambiente de trabalho, não basta agir nos "artefatos", mas é preciso um conjunto coordenado de ações que começam nos pressupostos e chegam aos artefatos de forma consistente e vigorosa.


Lembrando que só quem acredita nos pressupostos entenderá os artefatos e comungará, de verdade, dos valores compartilhados.




créditos imagem: pixabay