Fazer o que ama?

Vez ou outra escuto pessoas dizendo isso em palestras, conversas, postagens... Jargão popular de muitos palestrantes, mesmo que bem intencionados:


"É preciso fazer o que ama..."

Proferem esse mantra a plenos pulmões nos microfones de auditórios às suas audiências atentas, ou em vídeos viralizados nas redes sociais...


De tanto encontrar por aí esse discurso, comecei a questionar se realmente faz sentido, e ao fazer minhas reflexões, escutei algumas conversas internas e passei a provocar um novo complemento à essa afirmação. Sempre que escuto ou leio alguém proferir a afirmação título deste post, aguardo, dou a oportunidade ao arauto em questão para que finalize seu raciocínio, e caso este não venha algo complementando, me permito incluir, mesmo que mentalmente, uma vírgula e finalizo a frase desta forma:


"É preciso fazer o que ama, e também amar o que faz"

Ora, fazer o que amamos é fácil:


Eu por exemplo, amo sentar com minha esposa para apreciarmos uma taça de vinho juntos; amo escutar o canto dos passarinhos; amo dançar sozinho ou acompanhado; amo escutar histórias de minha mãe ou dos mais velhos; amo treinar e movimentar meu corpo praticando esportes; amo viver! Faço essas e outras coisas, que posso assegurar, amo fazê-las.


Já pensou como seria o mundo se cada um decidisse fazer somente aquilo que ama?


Por isso creio que devo também amar tudo que faço: amar cada linha que escrevo para publicar em livro ou postagens; amar cada análise das pesquisas que faço; amar as horas que fico em pé ministrando meus cursos ou as horas que fico sentado também apresentando aulas on-line... Mas amar isso também é fácil, pensei...


E, conversando com um amigo, identifiquei outro ponto, fazer com amor tudo o que faço, pois quem lê meus textos, não vê as noites que fiquei sem dormir preocupado com contas ou impostos a pagar; não vê as dúvidas ou medos que tenho ao iniciar um novo experimento ou ao atender um cliente; não vê as dores insistentes que o tempo e o desgaste físico já me cobram pelo ofício...


Por isso acredito que fazer o que ama é fácil, quero ver mesmo o sujeito amar o que faz!


Um padeiro que realmente faz o que ama e ama o que faz, fica emocionado ao ver a experiência do seu cliente ao provar sua obra de arte em forma de pão. Se o sujeito fica feliz e satisfeito com a venda que fez, penso que pode até fazer o que ama, mas amar o que faz ainda tenho minhas dúvidas... Para amar o que faz é preciso entregar muito mais intenção de amor ao outro, do que esperar uma compensação em troca, um pagamento...


Ao amar o que fazemos entregamos amor ao mundo pelo nosso trabalho.


E como é prazeroso receber atendimento de quem faz o que ama e ama o que faz!

Lembre-se das vezes que encontrou com motorista de aplicativo e que esse profissional te proporcionou uma experiência em forma de viagem pela cidade, ou um garçom que lhe ofereceu uma experiência gastronômica em forma de serviço com seus pratos, ou professores que lhe deixaram lições para a vida em forma de simples atividades de classe...


Encontramos bons profissionais, que prestam bons serviços, isso é verdade. A estes os categorizo no grupo dos que até fazem o que amam. Podem até um dia subirem de nível, e atravessarem o portal dos que fazem o que amam e amam o que fazem. Mas isso é outra história. Há uma estrada a ser percorrida para chegar a este estágio.


Para apoiar o entendimento dos mais "racionais" e metódicos costumo desenhar algo assim:



Quem realiza pouco e também pouco ama o que faz, os coloco no grupo dos que desperdiçam a vida. Imagino que deva ser um momento muito sombrio e triste, existir sem conhecer a sensação da real missão de vida. Vivem desperdiçando energia vital e com isso, maltratam os demais e os produtos, contaminam o ambiente com seu mau humor, descontam no mundo o preço de viver no lado negro da força.


Em um outro grupo há os que realizam muito, trabalham bastante, esforçam-se com energia vital, mas não sentem o amor nisso, fazem por uma obrigação ou necessidade de sobrevivência, ou como escuto por aí, "preciso pagar minhas contas..." ou até "tenho que trabalhar né...". Pessoas que até se esforçam mas não passam de bons prestadores de serviço.


No grupo dos que possuem a intenção, estão os que até sentem a energia da vocação, mas realizam mal, entregam pouco. Seja por falta de vontade, capricho ou até preparo. Profissionais que dizem "amo trabalhar com pessoas", mas quando perguntamos o que tem feito para aprender mais sobre isso, logo começam a gaguejar e a dar "respostas criativas". Poucos realmente despertam e atuam para lapidar seus talentos naturais. Alguns até admitem a arrogância e verbalizam que já sabem tudo na sua área...


E entendo que há os que possuem alto amor pelo que fazem e que quando o fazem, executam com muito amor. Esta categoria desenho para incluir e agrupar os que aplicam a sua Vocação. Palavra poderosa, nativa do latim vocare (atender ao chamado), que sintetiza muito bem quem faz o que ama e ama o que faz. A estes está reservado o oásis, o nirvana, a Sansara, o éden, o paraíso reservado aos que vivem em uma paz profunda. Um transe hipnótico ou como especialistas contemporâneos chamam de "fluxo". Pessoas que emanam uma energia criativa, dedicada e altamente produtiva ao fazer o que escolhem fazer.


Sendo assim, em minha opinião, escolho acordar todos os dias, respirar fundo e agradecer minhas oportunidades, faço minhas preces e abençoo o que faço, todos os dias. Prefiro essa rotina de entregar meu amor através de minhas pesquisas, aulas, cursos, experimentos... A cada movimento como este, espero que meu amor um dia chegue a repercutir positivamente nas vidas daqueles que meu trabalho possa tocar. Tem sido assim, desde que fiz a escolha de escutar a voz do meu chamado e tenho permitido que essa voz inspire meus passos. Sei que não é fácil, há muitas dores, noites mal dormidas, cansaço, medos no percurso...e é por tudo isso, que amo o que faço e faço o que amo.


E você? Em qual grupo está atualmente?